conecte-se conosco

Estilo de Vida

O país que apresentou o iogurte ao mundo

Publicado

em

998171286b6fa0eb-772a-427c-8a36-90cf7e9843cd

Na Bulgária, o iogurte está por toda parte. É a base de pratos tradicionais do país como o tarator, uma sopa fria de iogurte, água, pepino, nozes e ervas, e a snezhanka, uma salada de iogurte, pepino, alho e endro. As pessoas saboreiam bebidas feitas de iogurte nas ruas e mergulham fatias de abobrinhas fritas no líquido cremoso nos restaurantes.

“Colocamos iogurte em tudo”, diz o búlgaro Nikola Stoykov, nascido e criado na capital, Sofia. “Como três potes por dia. Um pela manhã, outro no lanche e mais outro antes de dormir”.

A história do iogurte no país é milenar. Muitos búlgaros afirmam que o iogurte foi descoberto acidentalmente há cerca de 4 mil anos, quando tribos nômades percorreram o território do país. Os nômades carregavam o leite em peles de animais, criando um ambiente perfeito para que as bactérias crescessem e iniciassem o processo de fermentação, resultando no iogurte. Com pequenas variações, foi assim que o iogurte foi descoberto em diferentes locais do mundo em diferentes momentos, provavelmente tendo como origem o Oriente Médio e a Ásia Central.

“É um fato que o iogurte fez parte da dieta das pessoas durante séculos nas terras dos Balcãs (região da Europa que engloba países como Albânia, Bósnia, Sérvia, Montenegro e Bulgária). É um processo natural que as pessoas descobriram por acaso… Os Balcãs são um dos muitos lugares do mundo que abrigam as bactérias específicas e os intervalos de temperatura necessários para produzir naturalmente iogurte”, pondera Elitsa Stoilova, professora-assistente de etnologia da Universidade de Plovdiv.

Independentemente de onde tenha sido descoberto, o que se sabe é que a Bulgária desempenhou um papel vital em apresentar o iogurte ao Ocidente e transformá-lo no produto popular e comercial que conhecemos hoje.

Foi um cientista búlgaro o primeiro a quebrar a composição do iogurte

Foi um cientista búlgaro o primeiro a quebrar a composição do iogurte Foto: Getty Images / BBCBrasil.com

Lactobacillus bulgaricus

Foi um cientista búlgaro o primeiro a detalhar a composição do iogurte. Pouco depois de seu casamento, em 1904, Stamen Grigorov voltou da região de Trun, na Bulgária, para a Universidade Médica de Genebra, na Suíça, onde estudava.

Trouxe consigo um pote de argila tradicional, chamado rukatka , contendo iogurte caseiro para examinar como parte de seus estudos. Um ano depois, ele havia identificado a bactéria essencial que fazia fermentar o leite, transformando-o em iogurte. O micro-organismo ficou conhecido como lactobacillus bulgaricus em homenagem ao país dos comedores vorazes de iogurte, ligando para sempre a Bulgária à sua produção.

Pela descoberta de Grigorov, o vilarejo de Studen Izvor, onde Grigorov nasceu, abriga agora o único museu de iogurte do mundo.

Quando pensamos em iogurte hoje, dificilmente nos lembramos da Búlgaria. Mas nas décadas de 20 e 30, devido ao foco da comunidade científica na amostra original de Grigorov, o iogurte búlgaro estava em alta. O trabalho do cientista detalhando a composição precisa do iogurte acabou sendo usado pelo biólogo russo e ganhador do Prêmio Nobel Élie Metchnikoff.

Em seu livro The Prolongation of Life O prolongamento da vida , em tradução livre), de 1908, Metchnikoff estabeleceu uma ligação entre o alto consumo de iogurte por camponeses búlgaros e sua alta expectativa de vida. Na verdade, as montanhas da Rhodope, na Bulgária, têm uma das maiores concentrações de idosos centenários da Europa.

Essa ideia de que o iogurte prolonga a vida alimentou um modismo em países europeus, como França, Suíça, Alemanha, Espanha e Grã-Bretanha, incorporando alimentos anteriormente pouco conhecidos na dieta da Europa Ocidental.

Mas esse novo apetite pelo iogurte búlgaro mudou fundamentalmente o produto. No passado, ele era feito em casa, pelas mulheres, só de olho. Mas o processo passou a ser controlado por cientistas e fabricantes de alimentos. Foi introduzida uma combinação de medidas rigorosas, equipamentos especializados e “culturas puras”, que excluíram qualquer microflora adicional encontrada naturalmente no iogurte caseiro.

A produção em maior escala, em terras onde o lactobacillus bulgaricusnão se proliferavam tão bem, levou ao uso de outros micro-organismos e de leite de vaca.

“Os iogurtes tradicionais eram produzidos com diferentes tipos de leite cru, como leite de búfala e ovelha, dependendo da área ou da época do ano. Hoje em dia, associamos o iogurte ao leite de vaca, que é resultado da industrialização do produto “, explica Stoilova.

Antigamente, os iogurtes eram produzidos com diferentes tipos de leite cru, como o de búfala e o de ovelha

Antigamente, os iogurtes eram produzidos com diferentes tipos de leite cru, como o de búfala e o de ovelha Foto: Getty Images / BBCBrasil.com

Novas mudanças

Na Bulgária, embora muitas pessoas tenham continuado a tradição de fazer iogurte em casa, a nacionalização da indústria de laticínios em 1949 trouxe novas mudanças.

O iogurte tornou-se um símbolo nacional, um meio para diferenciar a Bulgária do resto do bloco soviético. Mas, como o iogurte era produzido por diferentes famílias búlgaras e em diferentes regiões – sem falar no exterior – o Estado se viu obrigado a criar um produto búlgaro “autêntico”.

Para fazer isso, os microbiologistas viajaram para cima e para baixo no país coletando amostras de iogurte caseiro das rukatkas usadas pelas mulheres e, em seguida, realizaram experimentos para selecionar as cepas mais benéficas em termos de saúde e sabor.

Assim, nasceu um novo iogurte búlgaro oficial, que o Estado patenteou, promoveu e exportou. Até hoje, a empresa estatal LB Bulgaricum mantém e licencia sua patente para países como o Japão e a Coreia do Sul, onde oproduto, praticamente desconhecido até cerca de 35 anos, agora é extremamente popular.

Curiosamente, dado que a mistura singular de bactérias nativas da Bulgária não pode ser reproduzida em outros países, essas empresas asiáticas devem continuar importando as culturas para fabricarem sua própria versão do iogurte búlgaro.

Iogurte búlgaro perdeu espaço para o de outros países

Iogurte búlgaro perdeu espaço para o de outros países Foto: Getty Images / BBCBrasil.com

Renascimento

Desde a morte de Metchnikoff e a queda do comunismo em 1989, a Bulgária perdeu seus principais promotores do iogurte, o que explica por que o produto não é tão famoso na Europa como foi no passado.

No entanto, a tradição da fabricação de iogurte continua no país – e está renascendo. Durante a era comunista, o número de fabricantes diminuiu de 3 mil pequenos produtores para apenas 28 centros regionais. Agora, esses pequenos produtores locais estão ressurgindo.

Uma delas é a Harmonica, que produz o único iogurte orgânico certificado da Bulgária. Quando visitei seu centro de produção nos arredores de Sofia, o tecnólogo Toma Georgiev Bayatev me mostrou como o leite de vaca cru e orgânico é transformado em iogurte. O processo moderno segue passos semelhantes ao método caseiro descrito pela primeira vez por Grigorov em 1905: o leite é testado, pasteurizado a 96 ° C, então resfriado até 43,5°C, quando a cultura de bactérias é adicionada e deixada para fermentar o leite por cerca de seis horas.

Depois disso, o iogurte é refrigerado e embalado, pronto para consumo.

Quando provei o produto final, o iogurte era azedo e particularmente denso, com uma camada cremosa no topo. Não era tão suave como os iogurtes a que estou acostumado; sua textura granulada se devia ao fato de que foi feito com leite não homogeneizado. Era refrescante provar algo tão diferente.

“A autenticidade do iogurte búlgaro está em sua variedade, não em um produto padronizado. Se duas avós em diferentes vilarejos produzirem o iogurte a partir dos mesmos ingredientes, o produto será diferente. Isso é porque o iogurte é um produto caseiro. Está ligado à terra, aos animais e ao gosto particular da família, e o conhecimento dela é transmitido de geração em geração “, disse Stoilova, da Universidade de Plovdiv.

Tarator é uma sopa fria de iogurte, água, pepino, nozes e ervas | Foto: Madhvi Ramani/BBC

Tarator é uma sopa fria de iogurte, água, pepino, nozes e ervas | Foto: Madhvi Ramani/BBC Foto: BBCBrasil.com

Embora atualmente não haja tanta variedade de iogurte búlgaro como no passado, a tradição da produção de iogurtes ainda permanece. Uma rede informal de fabricantes oferece seus produtos em pousadas e restaurantes em vilarejos e pequenas cidades e ao longo das estradas em todo o país.

Segundo Stoykov, que come três potes de iogurte por dia: “Quando criança, minha avó costumava misturar iogurte com geléia de frutas e chamá-lo de “sorvete”, porque era uma opção muito mais saudável do que comer um sorvete propriamente dito. Foi assim que fui ‘enganado’ e passei a comer iogurte. Dali em diante, tornou-se um hábito. Sei de todos os seus benefícios para a saúde, mas essa não é a razão pela qual como muito iogurte. Trata-se basicamente do estilo de vida búlgaro”.

 

Fonte: bbcbrasil

Notícias do Brasil e do mundo você encontra aqui. Leia, comente, compartilhe e assista nossos programas. NBO - Um Novo Brasil Online começa aqui.

Continue lendo
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Estilo de Vida

Associação entra com pedido de liminar para uso de maconha medicinal na Bahia

Publicado

em

csm_21022018GSC1_a240a5b2fb

Associação para Pesquisa e Desenvolvimento da Cannabis Medicinal no Brasil (Cannab) entrou com um pedido de liminar na 6ª Vara da Justiça Federal, nesta segunda-feira (19), para obter a liberação para o plantio, o cultivo e a extração do óleo medicinal de CBD. A instituição foi criada em Salvador, no ano passado, e reúne pacientes que precisam da Cannabis como medicação.

No total, 50 pacientes serão beneficiados caso a decisão da Justiça seja favorável. A decisão está nas mãos da juíza Rosana Noya Alves Weibel Kaufmann. O presidente da Associação, Leandro Stelitano, informou que o número de pessoas que precisa da medicação é maior, e que uma nova liminar será impetrada nos próximos dias.

“Entramos com uma liminar para 50 pacientes porque são aqueles que conseguiram a receita e o relatório médico que atestam a necessidade da medicação, mas temos mais de 300 pessoas cadastradas no nosso site. A maioria dos pacientes tem dificuldade para conseguir a prescrição médica, e os médicos que prescrevem essa receita cobram muito caro pela consulta”, afirmou.

Leandro contou que para tentar contornar a situação, a Associação está levando os pacientes, alguns do interior do estado, para consultas com especialistas no Instituto de Neurologia, em Salvador. “Temos seis neurologistas que apoiam a Associação. À medida que os pacientes conseguirem as receitas e os relatórios, vamos acionar novamente a Justiça”, disse.

A maioria dos pacientes é portadora de epilepsia refratária de difícil controle, mas também há pacientes com Parkinson, autismo, esclerose múltipla e microcefalia. Todos, a maioria de baixa renda, estão aguardando para se tratar com substâncias extraídas da cannabis, como o CBD ou com o chamado THC (Tetraidrocanabidiol), que, a depender da planta, também compõe o óleo e pode ajudar no tratamento de doenças como o câncer, por exemplo.

Não existe prazo para a decisão sobre o pedido de liminar, mas os advogados da Associação acreditam que a Justiça dê uma resposta em até dez dias, como acontece em outros casos de pedido de liminar.

Uso recreativo

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Paraná Pesquisas apontou que 64,6% dos brasileiros são contrários a liberação do uso recreativo da cannabis. No total, 30,7% apoiaram a decisão e 4,7% não souberam ou não quiseram opinar.

Diferente do que propõe a Associação – que trata do uso medicinal da maconha – a análise pediu que moradores dos 26 estados e do Distrito Federal comentassem sobre a liberação da droga de uma forma geral.

O Instituto aplicou os questionários online, para 2.402 pessoas, com 16 anos ou mais, em 208 municípios. A pesquisa foi feita entre os dias 10 e 14 de fevereiro de 2018, e a margem de erro é de 2%. No total, 80% dos entrevistados tinha escolaridade até o ensino médio, e os outros 20% ensino superior. Na amostragem, 48% eram homens e 52% mulheres.

A pergunta feita aos entrevistados foi: você é a favor da legalização do uso da maconha no Brasil?

Entre os homens, o percentual de ‘Não’ foi de 66%, maior que os 63% registrados pelas mulheres. A rejeição foi maior entre as pessoas de 45 a 59 anos, e menor entre os jovens de 16 a 24 anos. Dos entrevistados com ensino superior, 45% foram favoráveis a liberação, 49% foram contrários e 5,2% não souberam opinar.

Os moradores da região Sudeste foram os que mais disseram ‘Sim’ para a liberação, com 33,5%, sendo seguidos do Nordeste (31,6%), Sul (26,5%) e Norte e Centro-Oeste, que juntas registraram 25,4%.

A segunda pergunta foi: Você é a favor da legalização do plantio da maconha no Brasil?

No total, 65,8% dos entrevistados disseram que ‘Não’, enquanto outros 30% disseram ‘Sim’, e 4,2% não souberam ou não quiseram opinar. O índice de rejeição foi maior entre as pessoas de 45 a 59 anos (72,8%) do que entre os com 60 anos ou mais (70,2%), e os jovens de 16 a 24 anos (53,5%).

Na Europa, a Comissão Europeia (CE) também está discutindo o assunto. A Comissão está em fase de análise final de relatórios de especialistas sobre a legalização ou não da maconha para fins medicinais nos países do bloco.

 

Fonte: correio

Continue lendo

Notícias

Estado lança em Lauro de Freitas vacinação fracionada com meta de imunizar 95% da população

Publicado

em

WhatsApp Image 2018-02-19 at 20.48.33

O secretário de Saúde do Estado, Fábio Vilas-Boas, lançou, nesta segunda-feira (19), em Lauro de Freitas, a Campanha Estadual de Vacinação Fracionada contra a Febre Amarela. O ato de lançamento aconteceu na Unidade de Saúde da Família Caji Vida Nova. Lauro de Freitas está entre os oito municípios baianos selecionados pelo Ministério da Saúde para receber a campanha que visa evitar a circulação e expansão da doença. A imunização foi iniciada também nos municípios de Camaçari, Candeias, Itaparica, Mata de São João, Salvador, São Francisco do Conde e Vera Cruz.

A meta do Estado é imunizar 95% da população dos oito municípios. “Estamos vendo muitos casos de febre amarela em humanos no país e graças ao esforço que o Estado vem fazendo, desde o ano passado, por orientação do governador Rui Costa, nós fizemos um bloqueio vacinal no Sudoeste e no Sul da Bahia e não tivemos até o momento nenhum caso de febre amarela em humanos”, ressaltou o titular da SESAB.

O vírus está presente em todas as regiões do Estado, inclusive na Região Metropolitana de Salvador, onde existem áreas remanescentes de Mata Atlântica. “É fundamental que toda população que não possui contraindicação procure os postos de saúde a partir de hoje para se proteger. Quanto mais pessoas vacinadas, menor a chance de haver a introdução da febre amarela humana em nosso meio”, destacou Vilas-Boas.

WhatsApp Image 2018-02-19 at 20.48.35

A prefeita Moema Gramacho destacou a importância da vacina para evitar a doença. “As vacinas sempre estiveram disponíveis em nossos postos, mas uma campanha tem um alcance maior. Toda população de Lauro de Freitas pode ficar tranquila porque não temos nenhum caso humano e por isso a importância da prevenção. Não podemos esperar que aconteça. A febre amarela precisa ser erradicada definitivamente do nosso país”.

A vacina fracionada é direcionada a pessoas na faixa etária entre 2 e 60 anos e que ainda não foram imunizadas. Em casos específicos como crianças de 9 meses a 2 anos, gestantes, idosos e outros indivíduos com condições especiais, a vacina será aplicada com a dose normal. A opção pela dose fracionada vai possibilitar que mais pessoas sejam imunizadas. “Nossos postos já realizavam a imunização contra febre amarela, por isso está sendo uma campanha tranquila, com uma demanda razoável e dentro da normalidade”, observou o secretário de Saúde de Lauro de Freitas, Erasmo Moura.

Edmilson Pimenta, morador do Recreio Ipitanga, revelou que assim que soube da campanha resolveu ir ao posto mais próximo. “Vi na televisão que começaria hoje e quis vir logo no primeiro horário, ainda mais que vou viajar para o interior, tenho que ir prevenido”.

No próximo sábado (24) será realizado o Dia D de Vacinação contra a Febre Amarela, com intensificação da imunização. Além das USF, as vacinas estarão disponíveis nos seguintes postos provisórios: praça em frente ao Parque Ecológico, na Escola Ana Lúcia Magalhães e nos supermercados G Barbosa, Hiper Bompreço, Atacadão Atakarejo, Atacadão, Max e Assai, com atendimento das 8h às 16h.

Continue lendo

Estilo de Vida

Cogumelos: benefícios e como escolher e usar

Publicado

em

cogumelo.jpg

Ao que parece, os cogumelos só estão experimentando agora no Brasil o apreço que há seculos desfrutam em outros cantos do mundo. Eles já tiveram até apelo sagrado, como sugerem representações gravadas em templos e sarcófagos do Egito Antigo, há 4 600 anos – eram tão especiais que se destinavam apenas aos faraós. Entre os chineses, então, possuíam aura de remédio, inclusive por propriedades que até os dias de hoje são aclamadas, como o reforço à imunidade. Mas nem mesmo essa fama e tantos atributos fizeram o alimento cair no prato dos brasileiros.

“A situação só começou a mudar na década de 1960, com a chegada dos imigrantes japoneses”, conta o engenheiro agrônomo Daniel Alves, da Associação Nacional dos Produtores de Cogumelos e pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios. Com um cultivo mais profissionalizado e a propagação dos benefícios da classe, os fungos comestíveis entraram em ascensão gradual. E foi com o impulso da culinária oriental que se tornaram cada vez mais pop.

Um levantamento da Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo não deixa dúvida de que os ventos do consumo sopram a favor dos cogumelos. Na capital paulista, por exemplo, já há mais restaurantes japoneses do que churrascarias – vai um shimeji na manteiga?

“O aumento na oferta de pratos europeus e de apelo saudável também impulsiona o consumo per capita, atualmente estimado em 200 gramas ao ano”, observa o biólogo Edison Souza, responsável pela Brasmicel, produtora de sementes de cogumelos de Suzano (SP). Segundo a Embrapa, em 1995 esse número girava em torno de 30. Ainda estamos bem atrás da China e vizinhança, mas, em um contexto de busca por receitas mais nutritivas e sustentáveis, os cogumelos têm tudo para se espalhar pelo país.

O crescimento do vegetarianismo e do veganismo é outra tendência que vem alavancando a venda de cogumelos. Eles são frequentemente indicados como substitutos da carne por reunirem grandes quantidades de proteínas e aminoácidos que o organismo não consegue produzir, além de ostentarem um teor baixíssimo de gordura.

No entanto, cabe lembrar que não suprem tudo que é fornecido pelos alimentos de origem animal. Deixam a desejar na oferta de vitamina B12 e zinco, por exemplo. “Assim, se a troca for feita sem orientação, pode comprometer a saúde e as funções cognitivas”, avisa o nutrólogo Celso Cukier, do Hospital São Luiz Morumbi, em São Paulo.

O consumo de cogumelos no Brasil ainda tem muito a crescer! (Ilustração: Ana Cossermelli/SAÚDE é Vital)

Os benefícios dos cogumelos

Boa proteína com pouca gordura está longe de ser o único trunfo do grupo. Há um baita potencial antioxidante – bacana para a prevenção de doenças crônicas – escondido nesses alimentos. Cientistas da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, exploraram, em 20 espécies, a presença de duas substâncias protetoras das células, a glutationa e a ergotioneína. O cogumelo porcini abocanhou o primeiro lugar, sendo eleito a melhor escolha para retardar o envelhecimento precoce e o risco de câncer.

Aliás, foi na tentativa de preservar ao máximo o efeito antioxidante dos fungos que pesquisadores do Centro Tecnológico de Investigação do Cogumelo, na Espanha, compararam quatro tipos de cocção. Para a surpresa dos estudiosos, colocar os cogumelos em um micro-ondas de 1 000 watts por um minuto e meio ou grelhá-los ao longo de seis minutos a 100 °C potencializou essa propriedade.

Contudo, o montante fervido durante dez minutos em uma panela com água, apesar de ter perdido parte dos antioxidantes, ficou com uma maior quantidade de betaglucanas, fibras que ampliam a sensação de saciedade, regulam o trânsito intestinal e auxiliam no controle do colesterol e do açúcar no sangue. Por isso, variar nos preparos é uma forma de assegurar todos os componentes bem-vindos do alimento. Só tem uma exceção.

O experimento espanhol mostrou que fritar os cogumelos no azeite por três minutos foi a única receita que acarretou desvantagens nutricionais. “Os estudos vêm indicando que os antioxidantes desses alimentos são resistentes a altas temperaturas, mas o ideal é não permitir que a exposição ao calor ultrapasse cinco minutos”, avalia a nutricionista Vanderli Marchiori, presidente da Associação Paulista de Fitoterapia. Portanto, nada de deixar refogando muito tempo na panela.

Os desafios da expansão

Um dos grandes predicados dos cogumelos é a polivalência na cozinha. “Falamos de um produto extremamente versátil, que agrega textura, sabor e aroma às receitas, e também pode ser a estrela do prato”, incentiva José Barattino, chef executivo do Eataly, shopping gastronômico de São Paulo.

A questão é que não são muitos os brasileiros que sabem disso. Afinal, a espécie mais consumida por aqui é o champignon-de-paris, que costuma ser coadjuvante de estrogonofes, pizzas e saladas. Uma das razões dessa preferência tem a ver com preço. Apesar de o nome soar à iguaria francesa, esse cogumelo é produzido e importado em larga escala da China. Aqui chega em potes de vidro a um valor bem mais em conta que os outros tipos.

Os chineses não só têm a seu favor o clima e a tradição. As conservas enviadas para cá não são taxadas a ponto de gerar uma competição de igual para igual com a produção nacional. Quem mais sofre com isso? Os brasileiros que cultivam cogumelos.

É nesse contexto que surgem iniciativas como a da bióloga Noemia Kazue, que, numa parceria do Instituto Ambiental com a Associação Yanomami, trabalha para desenvolver e valorizar espécies da biodiversidade da Amazônia. “Juntamos forças com a tribo para encontrar uma boa fonte de renda para eles e agora estamos confiantes de que é possível aquecer nosso mercado e capacidade de exportação”, comemora.

Para fazer frente à concorrência, os produtores brasileiros estão apostando todas as suas fichas nos cogumelos frescos. “Eles não têm conservantes e são mais nutritivos e gostosos, o que ajuda a atrair e fidelizar o consumidor”, acredita Priscilla Herrera, chef do restaurante Banana Verde, em São Paulo.
Como escolher os cogumelos

Com a chegada de mais cogumelos no mercado, não dá para descuidar da procedência. Fique sempre de olho nos selos de inspeção. E nem pense em se aventurar colhendo fungos por aí. “Alguns tipos chegam a ser letais”, alerta o doutor em engenharia de bioprocessos e biotecnologia Francisco Destéfanis, da Universidade Federal do Paraná.

Cozinhá-los também faz parte de um consumo seguro. “O fogo degrada agentes potencialmente tóxicos, como a agaratinha, presente no champignon-de-paris”, exemplica o professor. Só não vale, como já dissemos, deixar os bichinhos esturricando no fogão.

Outros macetes dão uma bombada no potencial nutritivo dos cogumelos. “Para aumentar a quantidade de vitamina D no shiitake, é interessante deixá-lo exposto ao sol por pelo menos 20 minutos antes de usá-lo”, orienta Noemia. Sim, um banho de sol na comida.

Tem outra dica: leve essa espécie ao forno por uma hora e coloque-a na água após o esfriamento. Essa reidratação gera um aminoácido chamado lantionina, que ajuda a impedir a formação de placas nas artérias, estopim de infartos e tromboses.

Agora, tenha em mente que, para tirar proveito de todos os ganhos mencionados até aqui, os cogumelos têm de marcar presença no menu. “Em uma dieta saudável, a ingestão semanal adequada varia entre 250 e 300 gramas”, calcula a nutricionista Camilla Avi, do Hospital de Amor (o antigo Hospital de Câncer de Barretos), no interior paulista. “Aliás, comer 100 gramas de cogumelos desidratados é o suficiente para atingir a meta diária de fibras para mulheres (25 gramas) e cerca de 80% do valor recomendado para homens (38 gramas)”, completa.

Não é à toa que estudiosos da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, prescrevem o alimento inclusive no café da manhã – eles testaram e aprovaram essa recomendação se o objetivo é prolongar a saciedade. O fato é que, não importa a refeição, os cogumelos estão aí para ficar e brilhar.
Perfil dos cogumelos mais populares entre os brasileiros

Funghi secchi: ingrediente de destaque na gastronomia italiana, não se trata de uma espécie diferente e sim de qualquer cogumelo comestível que passe por um processo de desidratação. Os mais consumidos nessa versão são os porcinis, da Itália, e linhagens encontradas nos bosques do sul do Chile.

Portobello: um dos mais utilizados pelas hamburguerias na composição das opções vegetarianas do menu. Tem textura firme e sabor acentuado. A tendência começou em Nova York, onde costumam deixá-los crescer por um tempo maior para que o chapéu possa ser temperado e entrar no lugar da carne de uma maneira mais prática.

Shimeji: conhecemos como shimejis os integrantes da família dos Pleurotus, sendo que os mais populares são o preto, o branco, o salmão e o amarelo – cada um com suas particularidades. Veja o caso do branco: é delicado, levemente adocicado, crocante e confere aroma de anis às preparações.

Do sol: ingerido na forma de extrato, seus fitoquímicos também rendem uma infusão com atividade supostamente antitumoral. Ferva 5 gramas do alimento desidratado em 1/2 litro de água por cinco minutos e passe pela peneira antes de beber. Vale consultar um expert antes.

Champignon-de-paris: apesar da referência à capital francesa, foi encontrado pela primeira vez em outra região desse país: Saumur. Pode ser usado em qualquer prato por apresentar sabor mais neutro. É ideal para os que buscam incrementar o almoço ou o jantar com novas texturas.

Shiitake: a coloração castanho-escura do chapéu – que mede em média 7 centímetros – entrega de cara seu sabor intenso e amadeirado, dependendo do tipo de substrato em que ocorreu seu desenvolvimento. Originado no oeste do continente asiático, só começou a crescer e aparecer de fato no Brasil na década de 1990.

Fonte:saúde

Continue lendo
Publicidade

+Vistos